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XVI Encontro Internacional do LATHIMM - Imagens neomedievais no Brasil


Call for Papers / Chamada de trabalhos

“Quando se começa a sonhar com a Idade Média? Evidentemente quando, se a Idade Média fosse diurna, o dia acaba, e inicia a reelaboração noturna, nas suas formas oníricas naturais. E já que, por consenso das más línguas, a Idade Média é a noite, dever-se-ia começar a sonhar quando surge o novo dia e, [...] entre o descobrimento da América e a tomada de Granada (dois nomes que, como veem, o presente adora associar, tanto quanto o adorava o passado), a humanidade alegre desperta cantando “que alívio, que alívio, acabou o medievo”. E, àquela altura, mesmo que seja de olhos abertos, começa a sonhar”. (ECO, 1989, p. 74)

Este pequeno excerto, aqui reproduzido como epígrafe, faz parte de um conhecido ensaio de Umberto Eco, Dez Formas de Sonhar a Idade Média [1]. Apesar de o próprio autor reconhecer os limites dos exemplos evocados em seu percurso argumentativo – “como convém a um bom cavaleiro das eras obscuras, serei rápido como o vento, e percorrerei somente as belas terras da Itália” (Ibidem, p. 75) –, o seu pioneirismo ao tratar de quais representações se fizeram da Idade Média torna-o incontornável a qualquer um que proponha um trajeto parecido, mesmo que perambulando por territórios alhures.

Como já reconhecido por outros autores [2], há pertinência das formas oníricas feitas da Idade Média em espaços que nunca nela pernoitaram. Raramente tomado como parte das ditas origens nacionais do Estado (e, assim, privilegiado pela historiografia acadêmica nascente no oitocentos), o medievo no Brasil foi sonhado mediante canções de ninar. Aqui, ele é sobretudo fruto do romantismo e suas mais variadas produções artísticas, e depois objeto de produções culturais populares ou de massa. Carlos Magno, em lugar de “pai fundador”, é personagem de romance de cavalaria [3], ou ainda rei imaginado em cordel [4].

Sonhar de olhos abertos, nos termos de Umberto Eco, contudo, exige considerar que imagens cruzamos pelo caminho. Nesse sentido, o LATHIMM pretende colaborar para o debate ora em curso sobre a natureza específica dos medievalismos/neomedievalismos enquanto campo científico, centrando-se sobre as representações visuais que se fizeram do medievo no Brasil e refletindo sobre os usos e abusos da Idade Média em todos os seus formatos midiáticos (pinturas, esculturas, filmes, fotografias, séries audiovisuais, telenovelas, quadrinhos, jogos etc). Se, a partir de sua transparência, se notivagou por certo(s) medievo(s), cabe agora refletir como, a partir de sua opacidade, se construíram imagens dele(s) [5]. Afinal, na Idade Média ou na contemporaneidade, mutatis mutandi, os sonhos e as imagens estão necessariamente implicados entre si [6].

Assim, o Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais realizará, no âmbito da USP, de forma presencial, a 16ª edição de seus Encontros Internacionais, nos dias 10 e 11 de dezembro de 2026, no Auditório Fernand Braudel do Departamento de História, que será dedicada à reflexão e às discussões a respeito das imagens neomedievais no Brasil.

Poderão participar do Encontro pesquisadorxs a partir da graduação (desde que participantes de projetos de iniciação científica).

Submissão de propostas:

Enviar título, resumo de até 500 palavras e uma breve biografia (100 palavras, no máximo).

As propostas devem ser enviadas por meio deste formulário até o dia 30 de setembro de 2026.

Línguas aceitas: português, inglês e espanhol.

 

[1] ECO, Umberto. Dez modos de sonhar a Idade Média. In: Id. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 74-85

[2] ALTSCHUL, Nadia R.; GRZYBOWSKI, Lukas Gabriel. Em Busca dos Dragões: a Idade Média no Brasil. Antítesis v. 13, n. 26, p. 24–35, 2020.

[3] O caso mais conhecido é, evidentemente, A Canção de Rolando. Para um balanço, cf. AILES, Marianne. Reading Charlemagne in Medieval England. In: BENNETT, Philip E.; AILES, Marianne (org.). Charlemagne in the Francophone World and Occitania. Woodbridge: D. S. Brewer, 2025. p. 170-237.

[4] A História de Carlos Magno e os Doze Pares de França, por exemplo, cuja adaptação para o cordel é de João Lopes Freire. Sobre o assunto, cf. KUNZ, Martine Suzanne. A transversalidade da voz: Carlos Magno da Idade Média ao Sertão. In: HENRIQUES, Júlia Maria Pereira de Miranda; PORDEUS JÚNIOR, Ismael de Andrade; LAPLANTINE, François (orgs.). Imaginários sociais em movimento: oralidade e escrita em contextos multiculturais. Lyon, França, Universidade de Lyon 2; Fortaleza, Brasil: Edições UFC; Campinas, Brasil: Pontes Editores, 2006. p. 213-221.

[5] Sobre o par transparência-opacidade, cf. ALLOA, Emmanuel. Introdução. Entre a transparência e a opacidade – o que a imagem dá a pensar. In: Id. (org.). Pensar a imagem. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015, p. 7-19.

[6] SCHMITT, Jean-Claude. O corpo das imagens: ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Bauru: EDUSC, 2007, particularmente p. 11-54.